segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Os bebês, as cegonhas, os números e os ângulos.


Você provavelmente já ouviu dizer que são as cegonhas que trazem ao mundo os bebês. Já parte do imaginário popular, talvez você não saiba que essa lenda escandinava, levada ao mundo pelas fábulas do escritor Hans Christian Andersen, foi "comprovada" por um estudo do britânico Robert Matthews. Em 1990, ele mostrou, após um estudo em várias cidades, relacionando a população de cegonhas e o número de nascimentos, que existe uma chance de 99,2% da lenda não ser uma lenda.
Robert, é claro, sabe que as cegonhas não trazem os bebês! Mas ele quis mostrar como uma correlação de fatos ou dados pode dar margem à interpretações estapafúrdias. É a falácia da falsa causalidade, que ocorre ao se presumir que uma relação real entre duas coisas significa que uma é a causa da outra.
Você está curioso para saber onde vamos chegar? Então veja isso:

Essa imagem bizarra surge de tempos em tempos em algum compartilhamento de post no Facebook, mostrando que a forma dos algarismos indo-arábicos é o que é por causa do número de ângulos formados pelas suas figuras. Dizia o texto do post que vi: "Aposto que não sabias que esta é a razão do formato que os números têm."
Nesse caso em questão, pior do que forçar uma causalidade a partir de uma correlação verdadeira, várias dessas correlações na figura são forçadas para parecerem corretas. Os pés do número 7, a viradinha malandra do 9, o 8 triangular, o zero redondo, destoando do padrão quadrangular do restante. Mesmo o 2, em forma de z e o 5 com a pontinha de baixo pra cima estão adaptados para forçar a correlação.
E mesmo que a correlação existisse, nada garantiria que uma coisa fosse a causa da outra.

Os nossos algarismos são conhecidos como indo-arábicos pois são fruto da evolução dos algarismos hindus, adotado pelos arábes e finalmente chegando até a europa.
IMENES, L. M. P. A numeração indo-arábica. Scipione, 2002.
O mais preocupante é que até na Wikipédia em português encontramos essa bobagem dos ângulos. Ok, sabemos que não se pode confiar incredulamente na Wikipedia, ainda mais em português, mas quem imagina quantos trabalhos escolares de jovens estudantes já não estarão contaminados?

Felizmente, na versão em inglês do mesmo artigo essa referência não existe. 
Enquanto existirem as pessoas que acreditam em qualquer coisa que lêem, existirão aqueles que se aproveitarão disso sem o menos constrangimento. Que o digam as campanhas eleitorais...

Foto do topo: William Heath Robinson, em Hans Andersen´s Fairy Tales (1913), pág 170.

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